Por José Pimenta

Chefes de Estado de todo o mundo se reuniram nesta terça-feira (22) na sede da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral. O encontro ocorre em momento de transição institucional, com o encerramento do mandato do secretário-geral António Guterres no final do ano. O tema da edição é “Restaurar a confiança e gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
Como de costume, o Brasil abriu os discursos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) proferiu seu décimo discurso na tribuna da ONU. Em seguida, falou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os dois países enfrentam tensões comerciais e diplomáticas, e desta vez não houve encontro bilateral entre os líderes.
Discurso de Lula
Lula iniciou destacando a crise do multilateralismo, a incapacidade da ONU de lidar com os conflitos internacionais e a paralisia do Conselho de Segurança causada pelo sistema de veto. Defendeu o fortalecimento da diplomacia e condenou os principais conflitos globais, com ênfase em Gaza, na guerra entre Rússia e Ucrânia e na crise no Oriente Médio.
O presidente brasileiro criticou a interferência externa e a pressão de grandes potências sobre países latino-americanos, reforçando a soberania do Brasil e da região. No campo da segurança, afirmou que o país dispõe de instrumentos próprios para enfrentar o crime organizado e que a cooperação internacional deve prevalecer sobre qualquer forma de ingerência.
Lula também cobrou a retomada da agenda climática e o combate ao negacionismo, além de defender a regulamentação da inteligência artificial e das Big Techs. Mencionou ainda os impactos da expansão da indústria de apostas online.
No plano interno, o presidente destacou o modelo econômico baseado em geração de empregos, proteção social — com referência à redução da jornada de trabalho e ao fim da escala 6×1 — e melhoria da produtividade. Encerrou com menção às eleições de 4 de outubro, à transparência do sistema eleitoral e aos riscos da desinformação, reforçando a defesa da soberania e da democracia brasileiras.
Discurso de Trump
O presidente norte-americano deu ênfase à guerra contra o Irã e defendeu a atuação militar dos Estados Unidos. Afirmou que, caso não haja acordo, poderá ampliar a ofensiva e destacou o isolamento econômico de Teerã. Também mencionou ações militares na Venezuela, criticou Cuba e cobrou do México uma atuação mais firme contra os cartéis.
Trump atacou a burocracia e a influência “woke” na ONU, criticou o Tribunal Penal Internacional e rejeitou a criação de mecanismos internacionais de controle da inteligência artificial, defendendo maior liberdade para o desenvolvimento tecnológico.
Contexto e repercussões
A Assembleia ocorre em meio a restrições orçamentárias da ONU, agravadas pela redução de repasses dos Estados Unidos, e a questionamentos sobre a capacidade da organização de responder às crises internacionais. A sequência dos discursos de Brasil e EUA coloca a relação bilateral em evidência, embora o governo brasileiro busque manter as negociações concentradas nos aspectos técnicos e comerciais.
A participação de Lula ocorre a menos de duas semanas das eleições presidenciais, nas quais é candidato à reeleição. Em um momento de empate técnico com o senador Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas, a tribuna da ONU foi utilizada para projetar autoridade e reforçar agendas de apelo popular, como a defesa da soberania, a ofensiva contra as apostas online, o fim da escala 6×1 e a proteção do Pix, além de temas de segurança pública e direitos dos trabalhadores.
