Por José Pimenta

Brasília – A Comissão Europeia oficializou nesta quinta-feira (3/9) a suspensão das importações de carne bovina, aves, ovos e mel do Brasil. A decisão foi atribuída ao descumprimento de normas sanitárias relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal.
O embargo ocorre em meio à pressão de produtores europeus após a entrada em vigor provisória do acordo entre União Europeia e Mercosul. O impacto sobre as exportações brasileiras pode chegar a US$ 2 bilhões por ano.
A liberação de frango e mel poderá ocorrer nos próximos meses, condicionada a auditorias. Para a carne bovina, porém, a restrição pode se prolongar por até dois anos devido ao ciclo de produção.
Impacto comercial
A União Europeia é um mercado relevante para as proteínas brasileiras, sendo o quarto maior comprador de carne bovina, o oitavo de carne de frango e o décimo de ovos.
Embora o bloco represente menos de 4% das exportações brasileiras de carne bovina, o mercado europeu tem maior valor agregado e remuneração. Alguns produtores chegam a receber até 50% a mais pelos embarques destinados à região.
Com isso, o impacto tende a ser mais concentrado entre os produtores que atendem ao mercado europeu, já que o redirecionamento para outros destinos pode ser limitado pela falta de habilitação ou de demanda por produtos de maior valor agregado.
A decisão também aumenta o risco regulatório e reputacional do Brasil, podendo estimular outros mercados a adotar exigências sanitárias mais rigorosas e dificultar a abertura de novos destinos.
Resposta do governo
O governo federal, por meio de órgãos como MRE, MAPA e MDIC, tem realizado articulações diplomáticas e apresentado medidas para demonstrar a capacidade brasileira de controle do uso de antimicrobianos.
Entre as iniciativas estão portarias que restringem o uso de antimicrobianos destinados à medicina humana em animais de produção e a homologação de um Protocolo Privado de Exportação de Bovinos Livres de Antimicrobianos.
Apesar das medidas, a União Europeia considera que os mecanismos adotados ainda não são suficientes para comprovar o controle sanitário brasileiro.
Crise pode acelerar modernização do setor
A restrição também pode abrir espaço para investimentos em rastreabilidade, boas práticas e pesquisa de alternativas aos antibióticos utilizados na produção animal.
Entre as possibilidades estão o desenvolvimento de probióticos, fitoterápicos e ácidos orgânicos. A crise também pode fortalecer iniciativas de sustentabilidade, como o Protocolo Carne Baixo Carbono.
Impacto político-eleitoral
A decisão tende a ampliar as tensões entre o governo federal e lideranças do agronegócio. Parte do setor avalia que houve falhas de coordenação e demora na resposta do governo para evitar a suspensão.
A oposição pode explorar o episódio para reforçar a narrativa de que o governo não estaria defendendo adequadamente o agronegócio. O governo, por sua vez, deve argumentar que adotou medidas para evitar e reverter a restrição e que a decisão europeia também estaria relacionada a interesses protecionistas.
O tema pode ganhar relevância no debate eleitoral, especialmente em estados com forte atividade pecuária, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Pará. Questões relacionadas à governança sanitária, sustentabilidade e defesa do setor produtivo podem ganhar espaço na agenda política.
