Por Luciana Abreu

Brasília – Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump conversaram por telefone nesta sexta-feira (21) por cerca de 1 hora e 20 minutos. O diálogo, descrito pelo Palácio do Planalto como de tom “amistoso e cordial”, teve como foco principal as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Lula, que iniciou a ligação, classificou de “infundadas” as alegações usadas por Washington para justificar as medidas. Segundo o governo brasileiro, o presidente rebateu pontos como desmatamento, propriedade intelectual, combate à corrupção, sistema Pix, mercado de etanol e supostas importações ligadas a trabalho forçado. Ele argumentou que as tarifas prejudicam tanto a economia brasileira quanto a americana e defendeu a continuidade das negociações como o melhor caminho.
Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltem a se reunir “o mais brevemente possível”.
Tarifas em vigor
Em julho, os EUA aplicaram tarifas de 25% sobre cerca de 4 mil produtos brasileiros (equivalentes a aproximadamente 18% das exportações para aquele mercado), sob alegação de práticas comerciais desleais. Poucos dias depois, foi anunciada uma taxa adicional de 12,5% relacionada a denúncias de trabalho forçado. O Brasil rejeita todas as acusações e, no início deste mês, abriu processo com base na Lei da Reciprocidade Econômica.
Crime organizado e conflitos internacionais
Os líderes também trataram da cooperação no combate ao crime organizado. Lula reiterou o interesse brasileiro em parceria com os EUA, mas rejeitou a equiparação do PCC e do Comando Vermelho a organizações terroristas — classificação feita por Washington em maio. Ele destacou medidas adotadas no Brasil, como a asfixia financeira de facções (com apreensão de cerca de R$ 17 bilhões) e planos de transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima.
A conversa ainda abordou as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Lula lamentou a “inoperância” do Conselho de Segurança da ONU e sugeriu uma reunião extraordinária do órgão.
Perspectivas
A ligação, a primeira entre os dois desde a imposição das novas tarifas, é vista como um passo para aliviar tensões bilaterais. Embora não tenha resultado em anúncio de redução ou retirada das tarifas, a concordância em retomar o diálogo técnico aumenta as expectativas de novas rodadas de negociação. O avanço concreto, no entanto, dependerá das próximas tratativas entre as equipes dos dois governos.
