Por Érico Haruo

Brasília – O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta terça-feira (19) que Brasil e Estados Unidos podem concluir em até 30 dias um acordo sobre tarifas incidentes sobre produtos da pauta exportadora brasileira.
Durigan se reuniu com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, durante os encontros ministeriais do G7 em Paris. Segundo o ministro, as negociações técnicas estão sendo conduzidas pelas equipes comerciais dos dois países, e os termos finais serão analisados por ele e Bessent antes de serem submetidos aos presidentes Lula e Donald Trump.
Percepções da administração Trump sobre o Brasil
Nos bastidores de Washington, a relação com o Brasil é conduzida por uma lógica transacional, geopolítica e de segurança nacional. Qualquer país que ofereça um bom negócio ganha atenção, mas a afinidade política e ideológica funciona como filtro importante para abrir canais preferenciais de diálogo.
Governos que compartilham visões conservadoras, agendas anti-establishment e discursos soberanistas tendem a ter tratamento mais favorável. Sem esse alinhamento, pleitos técnicos e comerciais correm maior risco de avançar lentamente. As relações bilaterais na era Trump são altamente personalizadas, o que exige do Brasil uma diplomacia sofisticada, capaz de traduzir interesses comerciais em linguagem que dialogue com os valores e prioridades políticas americanas.
Acordo pode reverter tarifas ou apenas mitigar danos?
Apesar do otimismo manifestado pelo ministro Durigan, analistas de comércio exterior adotam visão mais realista. A avaliação predominante é que um acordo de reversão total das tarifas é altamente improvável.
A tendência é que as negociações resultem em um acordo parcial, com mitigação de danos. O “tarifaço” americano funciona como principal instrumento de pressão. Espera-se que os EUA busquem contrapartidas do Brasil em temas como propriedade intelectual, combate ao contrabando, rastreamento de desmatamento em cadeias agropecuárias (especialmente carne e grãos) e sistema de pagamentos instantâneos (Pix).
Em vez de um amplo tratado de livre-comércio, o acordo deve seguir o padrão de barganhas setoriais, com possíveis avanços em aço, alumínio, exclusões tarifárias específicas e tratamento diferenciado para minerais críticos (lítio, nióbio, terras raras e grafite). Produtos que competem diretamente com produtores americanos, como etanol, dificilmente serão poupados.
Desafios para o Brasil no mercado americano
O mercado americano é marcado por forte dinamismo regulatório e fiscalização rigorosa. Diante disso, o Brasil precisa adotar postura proativa para enfrentar barreiras técnicas, processos tarifários e desafios logísticos.
Especialistas destacam a importância de monitoramento constante em Washington, articulação institucional para defender interesses brasileiros e capacidade de demonstrar que sobretaxas a determinados produtos podem gerar inflação ou desabastecimento nos próprios Estados Unidos.
Avanços em rastreabilidade, certificação e adequação a padrões americanos podem ajudar a mitigar riscos e fortalecer a posição do Brasil nas cadeias globais de suprimentos, especialmente em setores estratégicos como minerais críticos.
