Por Luciana Abreu

Em uma operação que expõe as entranhas da infiltração do crime organizado na política fluminense, a Polícia Federal (PF) prendeu preventivamente Rodrigo Bacellar (União Brasil), presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), nesta quarta-feira. A detenção, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), faz parte da Operação Unha e Carne, desdobramento da Zargun, que investiga ligações entre facções como o Comando Vermelho (CV), agentes públicos e deputados. Bacellar é acusado de vazar informações sigilosas para o ex-deputado estadual TH Joias (MDB), orientando-o a destruir provas na véspera de uma batida policial, em um esquema de obstrução de justiça e corrupção que movimentou milhões e facilitou o tráfico de armas e drogas. A ação, que incluiu buscas no gabinete da Alerj e na residência do parlamentar, representa um terremoto político, abalando a disputa pelo governo estadual em 2026 e forçando a Assembleia a eleger um novo presidente em meio ao escândalo.
A prisão ocorreu de forma discreta ontem (4), por volta das 10h, na Superintendência da PF na Praça Mauá, no Centro do Rio. Bacellar foi “convidado” para uma reunião pelo superintendente Fábio Galvão e, ao prestar depoimento, teve o mandado de prisão lido. Seu celular foi apreendido no local, evitando a espetacularização da cena, conforme determinação judicial. Agentes também cumpriram oito mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao deputado, incluindo seu gabinete na Alerj. TH Joias, pivô do vazamento, foi levado coercitivamente para depor. Moraes determinou ainda o afastamento imediato de Bacellar do mandato e da presidência da Casa, com base em indícios de “risco de continuidade delitiva” e interferência em investigações contra organizações criminosas.
Contexto: Do Vazamento à Infiltração do CV na Política
A Operação Unha e Carne surge como ramificação da Zargun, deflagrada em 3 de setembro de 2025, que desmantelou uma rede de corrupção envolvendo lideranças do CV no Complexo do Alemão. TH Joias (Thiego Raimundo dos Santos Silva), ex-deputado expulso do MDB, foi preso na ocasião por negociar fuzis importados do Paraguai, equipamentos antidrone da China e drogas para a facção, usando o mandato para garantir impunidade e acessar informações sigilosas da PF. O esquema incluía policiais militares, um delegado federal (detido no Aeroporto do Galeão) e ex-secretários municipais e estaduais, com sequestro de bens avaliados em R$ 40 milhões. A Operação Bandeirante, do Ministério Público do Rio (MPRJ), denunciou TH por associação ao tráfico e comércio ilegal de armas, com ligações nos complexos da Maré, Alemão e Parada de Lucas.
O elo com Bacellar veio à tona por interceptações telefônicas: na tarde de 2 de setembro, véspera da Zargun, ele ligou para TH Joias, alertando sobre a iminência da prisão e instruindo-o a “destruir provas”. TH zerou o celular antigo, comprou um novo, esvaziou a casa na Barra da Tijuca com um caminhão-baú e enviou uma foto do sistema de segurança mostrando agentes da PF – Bacellar respondeu: “Deixa isso, tá doido? Larga isso aí, seu doido”, referindo-se a um freezer com objetos incriminadores. O procurador-geral de Justiça do RJ, Antonio José Campos Moreira, havia alertado no dia da operação sobre o vazamento, notando a casa revirada e a fuga frustrada de TH. Moraes, em sua decisão, classificou os fatos como “gravíssimos”, citando obstrução de justiça, violação de sigilo funcional, fraude processual e favorecimento a organização criminosa armada, com influência no Executivo estadual para blindar o CV.
Bacellar, natural de Campos dos Goytacazes e advogado tributarista, tem histórico familiar na política – filho do ex-vereador Marcos Bacellar. Eleito para a Alerj em 2018 pelo Solidariedade (26.135 votos), reeleito em 2022 e empossado presidente em fevereiro de 2025 por unanimidade, já respondia a inquéritos por interferência em operações policiais. A ação se insere na ADPF das Favelas, decisão do STF que manda investigar conexões entre crime organizado e agentes públicos.
Reações: Choque na Alerj e Defesa de Inocência
A Alerj emitiu nota afirmando não ter sido comunicada oficialmente e que “tomará as medidas cabíveis” ao acessar as informações, enquanto deputados aliados de Bacellar se reuniam em caráter emergencial para discutir a sucessão na presidência – nomes como o do 1º vice-presidente, Zaqueias de Oliveira (PTC), circulam como interinos. A defesa de Bacellar, em nota inicial, negou as acusações, chamando-as de “infundadas” e prometendo defesa “nos autos”, alegando que as conversas eram “rotineiras” e sem conotação criminosa.
Políticos rivais foram mais duros: o prefeito Eduardo Paes (PSD), cotado para 2026, disse que a prisão “reforça a necessidade de depuração da política”, enquanto o governador Cláudio Castro (PL) lamentou o episódio, mas evitou comentários diretos.
Impactos Políticos: Vácuo na Disputa de 2026
A detenção abala o tabuleiro eleitoral para o Palácio Guanabara em 2026. Bacellar, com 9% nas pesquisas Quaest de agosto, era o principal nome do centro-direita para suceder Castro, após ser promovido no primeiro semestre – mas relações azedaram em julho, com a exoneração de Washington Reis (MDB) da Secretaria de Transportes. Sua saída fragmenta a oposição a Paes, beneficiando indiretamente o prefeito e enfraquecendo o União Brasil, partido de Bacellar. Analistas preveem que eleitores migrem para Reis ou nomes bolsonaristas, mas sem herdeiros claros, criando um vácuo no campo governista. A PF deve entregar relatório parcial em 30 dias, com risco de delações premiadas ampliando o escândalo.
