“COP da Verdade” marca 10 anos do Acordo de Paris com apelos por ação imediata

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Por Rebecca Ferraz


Foto: Ricardo Stuckert / PR

Belém – A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) foi oficialmente aberta nesta segunda-feira (10) no Parque da Cidade, em Belém, transformando a capital paraense no epicentro global das discussões climáticas. Com mais de 50 mil participantes esperados, incluindo líderes de 143 países, cientistas, ativistas e representantes indígenas, o evento – batizado informalmente de “COP da Verdade” – inicia uma semana decisiva para acelerar a implementação do Acordo de Paris, assinado há exatos 10 anos. Mas o tom da cerimônia de abertura, marcada por danças indígenas e discursos inflamados, também expôs divisões: ausências de grandes emissores como EUA e China, polêmicas com preços inflacionados e um apelo veemente do presidente Lula contra negacionistas climáticos.

A abertura, transmitida ao vivo para o mundo, reuniu delegações na “Zona Azul” (espaço para negociações oficiais) e na “Zona Verde” (aberta à sociedade civil), com pavilhões temáticos como o de Transição Justa, co-hospedado pela OIT e Comissão Europeia, e o de Saúde, liderado pela OMS e Wellcome Trust. O secretário-geral da ONU, António Guterres, abriu os trabalhos com uma crítica dura: “Não é hora de lamentar, mas de buscar soluções. A falha em limitar o aquecimento a 1,5°C é uma negligência mortal e um fracasso moral”, alertou, citando o relatório da OMM que aponta 2025 como um dos anos mais quentes da história, com temperaturas médias 1,42°C acima dos níveis pré-industriais. Guterres cobrou dos líderes “um plano de resposta ousado” para fechar lacunas em ambição e implementação, especialmente em financiamento para adaptação em países vulneráveis.

Lula e o Tom Político: “É mais barato investir no clima do que na guerra”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, anfitrião do evento, usou seu discurso de abertura para um ataque direto aos negacionistas. “Países que negam a pandemia climática devem ser parados de uma vez por todas”, disparou, em referência velada à ausência dos EUA sob Donald Trump, que retirou o país do Acordo de Paris pela segunda vez no início de 2025. Lula destacou que investir US$ 1,3 trilhão anuais em soluções climáticas é “muito mais barato” do que os US$ 2,7 trilhões gastos em guerras no último ano, ecoando um chamado à cooperação global. Ele também assinou, dias antes, uma lei simbólica transferindo temporariamente a capital federal para Belém durante a COP (de 11 a 21 de novembro), reforçando o protagonismo amazônico.

A presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, foi eleito formalmente e enfatizou a transição justa: “Precisamos colocar em prática o mapa de Baku para Belém, acelerando renováveis e eficiência energética”. Líderes indígenas, chegando de canoas pelo Rio Amazonas, roubaram a cena com danças tradicionais e protestos por justiça climática, descrevendo secas e desmatamento como ameaças diretas a suas comunidades. Uma coalizão de 53 países, liderada por Brasil e França, anunciou US$ 2,5 bilhões até 2030 para proteger a Bacia do Congo, em paralelo ao Fundo “Bosques Tropicais para Sempre” (TFFF), iniciativa brasileira de US$ 125 bilhões para conservação de florestas tropicais.

Pautas Centrais: Financiamento, NDCs e Transição Energética

A COP30, que vai até 21 de novembro, foca em três eixos principais: a apresentação de novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs 3.0), que cobrem 2025-2035 e devem ser mais ambiciosas; o progresso no roteiro de financiamento climático de COP29, visando US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 para ações em países em desenvolvimento; e a eliminação gradual de combustíveis fósseis, com metas para desmatamento zero até 2030. O relatório da UNEP alerta para um “déficit de adaptação” que deixa vulneráveis expostos a eventos extremos, enquanto o IPCC, em discurso na abertura, reforçou que mesmo com NDCs atuais, o aquecimento pode chegar a 2,3-2,5°C.

Dias temáticos já agendados incluem inovação agrícola na AgriZone (com soluções de IA para previsão climática) e pavilhões regionais, como o da ASEAN, para engajar parceiros em ações climáticas. O Brasil, como presidente, prioriza a equidade: “Esta é uma COP de vozes unidas, não de delegações isoladas”, disse um líder indígena.

Desafios Logísticos e Polêmicas: De Preços Altos a Ausências

A preparação para Belém não foi isenta de controvérsias. Uma crise de hospedagem inflou preços de hotéis e aluguéis em até 300%, levando delegações como a da Áustria a reduzir equipes e gerando protestos de moradores locais despejados temporariamente. O governo federal negocia com o setor hoteleiro, mas críticas internacionais persistem. Projetos de infraestrutura, como a duplicação da BR-316, foram vistoriados na “Rota COP30” – uma caravana que percorreu 2,5 mil km pela região Norte.

Ausências de peso marcam o evento: além dos EUA, China, Índia e Rússia – quatro dos cinco maiores emissores – não enviaram chefes de Estado à cúpula prévia de 6 e 7 de novembro. Ativistas, como um de Greenpeace que caminhou numa corda bamba a 30 metros em Madri em solidariedade, cobram mais ação do que promessas.