Por Rebeca Ferraz

A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, deflagrada na terça-feira (28) contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha, deixou 119 mortos — 115 suspeitos e quatro policiais —, segundo balanço oficial do governo estadual divulgado ontem (29). A ação, batizada de Contenção, mobilizou polícias Civil e Militar e resultou em 113 prisões, 118 armas apreendidas (incluindo 91 fuzis) e toneladas de drogas confiscadas, assim como confrontos que duraram mais de 12 horas, com bloqueios de ruas e rodovias pela retaliação do crime organizado. Moradores relataram pânico generalizado, com escolas fechadas, comércio paralisado e dezenas de corpos recolhidos pela comunidade na Praça São Lucas, na Penha, elevando temores de subnotificação — apurações independentes apontam para até 128 vítimas.
O governador Cláudio Castro (PL) defendeu a operação como um “sucesso histórico” e o “maior baque ao Comando Vermelho desde sua fundação”, alegando que o estado atuou “sozinho” após três pedidos negados de apoio federal para emprego das Forças Armadas. Castro anunciou transferências de presos para presídios federais e caracterizou a ação como resposta a um “problema fora da esfera da segurança urbana”, mobilizando sua base bolsonarista com discurso de “mão de ferro”. No entanto, o episódio assume riscos altos para o governador, incluindo possível judicialização por excesso de letalidade, e reforça críticas à sua gestão, responsável por quatro das cinco operações mais mortais do estado.
O governo federal rebateu as acusações de omissão, afirmando ter atendido prontamente pedidos anteriores pela Força Nacional e autorizado, na noite de terça, a remoção de dez líderes do Comando Vermelho para unidades federais de segurança máxima. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, descartou Garantia da Lei e da Ordem (GLO) por ausência de solicitação formal e destacou ações coordenadas via Polícia Federal, passando imagem de apoio técnico em vez de militar.
O episódio recoloca a segurança pública como tema central da agenda nacional, polarizando o Congresso e impactando pautas legislativas. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinaliza urgência para requerimentos sobre endurecimento penal e cooperação federativa, visando renovar a imagem do Legislativo. No Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) apoia o combate ao crime, mas cobra “esforço coletivo” e redução da letalidade. Na Alerj, o presidente Rodrigo Bacellar (União Brasil-RJ), aliado de Castro, promete “somar forças independente de lado político”, mas a tensão com parlamentares pode travar tramitações. A operação, ocorrida seis meses após o STF encerrar a ADPF das Favelas — que inicialmente visava conter abusos policiais, mas terminou incentivando “recuperação de territórios” —, alerta movimentos sociais para o risco de escalada militarizada.
Economicamente, a ação causou paralisação parcial na zona norte, com desvios de ônibus, suspensão de aulas e impacto no comércio local, ampliando o sentimento de risco à circulação. Às vésperas de eventos internacionais como o Fórum de Líderes Locais da COP30 e a Cúpula da C40, o episódio eleva preocupações reputacionais e demanda reforço de segurança. Socialmente, as redes explodem em polarização: a direita, liderada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), acusa o federal de abandono; a esquerda, com Marcelo Freixo (PT-RJ) e Érika Hilton (PSOL-SP), condena Castro pela matança. Organizações como ONU, Anistia Internacional e Defensoria Pública da União repudiam a letalidade, exigindo investigações rápidas e o fim de violações em comunidades marginalizadas.
Nos próximos dias, a operação deve dominar o noticiário, deslocando prioridades como clima e economia, e pressionando o federal por medidas concretas — de apoio logístico a programas integrados. Governadores de direita devem explorar o medo para pautas eleitorais, enquanto Lula aposta em comunicação para conter danos. O MPRJ monitora os fatos, mas o legado da ação — entre avanço contra o crime e risco de escalada de violência — definirá rumos para a segurança no país, com desdobramentos nas eleições de 2026.
